Caro leitor, decidi-me agora por recriar o que escrevi. E se não fosse o século 19 mas sim o 21? E se um rapaz, economista, com sobrenome de Passos Coelho nos governasse? Como seria a vida e a história?
“O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquilamente as mãos e o novelo no regaço, e chamou para dentro da casa:
-Joaninha?
Uma voz doce, pura, mas vibrante, destas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro da alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:
-Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.
-Querida filha!... Como ela me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando puderes. É a meada que se me embaraçou.”
-Fique tranquila, minha avó ! Pronto… vou desembaraçar para a senhora ! - Joaninha era uma daquelas jovens puras, doces, e de uma natureza esplendida, na qual só a sua voz já transmite a maior paz que qualquer ser humano tenha deslumbrado.
-Ah minha neta ! Obrigada, estou embaraçando muito a meda ultimamente...Estou perdendo a prática !
-Magina avó... Há coisas bem mais embaraçadas do que esta por aí...- Na voz dela havia um tom de melancolia e súplica, desejando expor todos os seus pensamentos.
-Que voz é essa Joaninha ? A que te referes exatamente ?
-Ah minha avó... não ouça as minhas bobagens, apenas gostaria que vivêssemos num país diferente e Deus que me perdoe,mas que fosse comandado por pessoas que tivessem mais que euros na cabeça...
A avó conseguia notar muito bem pelo tom de voz da neta, que havia uma espécie de revolta notória. A velha bem sabia que a neta não era tola, muito pelo contrário, acreditava que quando tinha esse tipo de conversa com a neta, a jovem estaria expondo seus pensamentos ocultos. Resolveu aprofundar o conteúdo:
- Reclamas de boca cheia ! Se tivesses vivido durante a ditadura, não estavas praqui reclamando de um sujeito tão jeitoso quanto o nosso primeiro ministro !
- Avó de Deus ! Com todo o respeito que tenho pela senhora precisamos comprar outro óculos!
As duas riram. E Joaninha resolveu aproveitar um dos momentos mais descontraídos com a velha:
- Minha avó, me conte então, como era naquela época?
- Era terrível minha querida netinha. Na época não podíamos falar nada que ninguém nos voltava a ver. Pessoas eram mandadas para África para morrer e qualquer oposição ao governo era traição nacional. Depois veio a guerra e as coisas só pioraram. Aquele louco do Salazar achou que devíamos proteger a colônias, custasse o que custasse! Milhares de bravos homens foram para lá e nem todos voltaram... Era horrível!
Joaninha estava pasma e fascinada ao mesmo tempo. Não conseguia imaginar uma época em que tudo era reprimido pelos políticos e qualquer oposição era eliminada a todo custo. Resolveu tirar mais informações:
- Mas porque ninguém se revoltava ? A forca do povo pode superar muitos governos!
A avo começou a rir da ingenuidade da neta. Alguns momentos a maturidade da neta fazia a avo esquecer que Joaninha era apenas uma menina e que ainda teria muita coisa a aprender:
- Claro que nos revoltávamos querida, mas Salazar era forte! Quem o fazia tinha garantias de aparecer morto com um tiro na nuca! E alem do mais ele era muito querido por alguns de seus feitos, afinal antes dele éramos uma bagunça econômica e um falhanço quanto a política externa. Foram precisos os militares para tira-lo do poder...
Havia um pesar na voz da avo e Joaninha percebia que não deveria continuar o assunto, mas ainda corria em sua mente as mudanças que poderiam acontecer e em uma indagação profunda e esperançosa, perguntou- se se algum dia presenciaria as tais transformações...
Caminhos do Tejo
sábado, 18 de abril de 2015
O Fim!
Pronto, agora me vou! Finalmente dou adeus ao que deixei e vou-me embora de Santarém! Estou fatigado da cidade, mas ao mesmo tempo deixa-la abre-me um vazio no coração, porque não ficamos mais um dia? E falando nisso que dia é hoje? Sexta-feira? Péssimo dia para começar a viagem. Era nesse dia que tradicionalmente a velha era afligida por seu demônio em forma de Frei e foi ao passar de novo pela casa que senti-me atraído pela mesma e fui obrigado a espiar.
Lá, como antes havia acontecido, estava Dona Francisca, sempre tecendo com sua meada, e Frei Dinis, ajoelha com olhos fixos em seu livro vermelho e grosso. Logo perguntei por Joaninha, estava no Céu, fora um anjo segundo o Frei. Depois foi a vez de Carlos, o Frei não se conteve e me encarou com um olhar que não pretendo rever nunca e disse-me que estava só, que todos tinham-se ido. Por fim sobrava a velha, morta de desgosto, de angustia, de medo! Morta pelo meu interlocutor segundo ele mesmo. O Frei prosseguia inconsolável, informando que Santarém estava morta, Portugal estava morto, a esperança estava morta!
Mas a esperança é o que distingue os outros de nós, cristãos valentes, e logo nunca devemos abandona-la. Porem para aquele homem não havia sido ele a abandonar a religião ou a Deus, mas sim o contrário que ocorrera.
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“— Sabe a história do vale?
— Sei tudo até a partida de Carlos para Évora.
— Aqui tem a carta que ele escreveu.”
O narrador e Frei Dinis falando da carta de Carlos.
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#carta #leitura
Por fim deu-me uma carta para ler e entender porque Carlos havia ido e Joaninha morrido. Carlo havia partido, não para melhor, mas sim para longe e havia partido porque descobrira de onde viera. Descobrira quem seu pai era e o que fizera, o que sua vó acobertara e por isso havia abandonado Joaninha, pois não podia mais ficar lá. Não aguentava mais ver os dois, mesmo perdoando a avó, pois para ele o crime que ela acobertará era muito grande para ser perdoado. Deus porem devia perdoa-la, uma vez que tudo o que ela fizera foi causado pela cólera de Deus sobe a pobre senhora.
Mas não cabe a Carlos perdoar ninguém, visto que não há quem o perdoe. Há porem em Carlos uma admiração por Joaninha, a mesma Joaninha que ele traiu e para quem ele mentiu. A mesma Joaninha que ele trocou por Inglaterra, pela alta sociedade, por algo novo e culto. Foi nessa Inglaterra que ele conheceu o que chamava de três anjos e foi também por lá que descobriu o que era flertar, o prazer de amar sem o compromisso de galantear.
Lá também conheceu Laura, descrita por ele como fascinante. Nem alta nem baixa, forte mas não gorda, delicada mas sem magreza, não a mais bonita nem a mais adorável, apenas a mais fascinante. Primeiro amor, mais forte amor, amor reciproco mas ainda assim amor impossível. Parecia o destino do rapaz um amor impossível.
Eles se amavam, amavam e notava-se isso, mas ao mesmo tempo Laura estava comprometida, tinha de partir para Gales e depois para a Índia, estava destinada a ir para não mais voltar. Carlos sabia disso, mas não aceitava isso, só finalmente vendo o futuro se tornar presente ao deixar a amada nas cais para partir para terras das quais não voltava mais. E mesmo se voltasse Carlos não devia vê-la, ele prometera.
A sua irmã, Julia, passou a ser o meio termo entre ambos, sendo a intermediaria de cartas entre eles, porem finalmente Laura foi pra Índia e com uma última carta encerrou o que foi o primeiro verdadeiro amor do rapaz. Nisso surgiu uma terceira irmã, Georgina, que deu a Carlos o que o mesmo descreveu como os três meses mais feliz da própria vida. Amou, foi amado, não foi rechaçado por uma promessa de casamento. Carlos com isso tornava-se um homem feliz... Ao menos até a pátria chamar.
A mesma pátria que havia sido abandonada pelo próprio Rei, tornada colônia de sua colônia e humilhada de todas as formas possíveis. Ainda assim a pátria era a pátria e Carlos tinha um compromisso para ela. Trocou a alegria pelo direito de defender o próprio país e aceitou que era lá, numa guerra entre pessoas que nunca viu e que nunca ligaram para ele, que deveria estar e talvez morrer.
Não morreu, viveu mas não voltou ao vale que uma vez lhe servira de casa. Decidiu que era para ser barão e político, que ia gritar aos ministros que não sabia quem eram e, se tudo desse errado, por fim viver como um agiota, pois afinal que outra opção sobrava para uma vida cheia de aventuras?
Terminei a carta e encarei o frei. Me contou que afinal Carlos virara barão e ia ser deputado, quem diria?! Deu-me o final de minhas principais almas amigas; Joaninha enlouquecera e voltara para o vale para morrer; Georgina virara abadessa num convento inglês e a velha... A velha não estava morta de facto, mas sim de alma. A velha nada mais era do que restos de carne esperando para serem decompostos... pena.
“— Que transformação! como se fez isso santo Deus! E Joaninha? e Georgina?
— Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra.”
Joaninha enlouqueceu e morreu.
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Por fim só sobrou-me despedir-me do frei e aceitar que nem eu nem ele estávamos certos, que nem barões nem frei tinham todas as respostas e que toda aquela guerra baseada na promessa de mudança nada mais era do que uma briga mesquinha por um poder que nenhum dos lados realmente deveria ter. Assim acabou minha viagem caro leitor, não sei se foi do teu agrado mas espero ter sido ao menos interessante, porque não há mais sobre o que falar.
Túmulo Violado
Ir ou ficar? Voltar ou o tumulo visitar? Ir-me antes de prestar homenagem a Dom Fernando? Não! Mas em que estado se encontra o que deveria ser um monumento solene ao rei que nunca foi calmo ou constante? Ruína! Ruína e isso me enche a alma e o corpo de raiva! Que homem acha que tem o direito de pela própria mão privar esta cidade e este país de seus heróis? Que soldado acha que pode destruir os símbolos de um país tão glorioso quanto Portugal?
O que esses bárbaros pensavam encontrar? Ouro e riquezas? Era um Rei mas era um Rei morto! Profanaram assim um tumulo de beleza incomparável e impossível de se achar em qualquer outro lugar em Portugal! Quero me ir embora deste lugar! Mas como sem antes ver o túmulo de el-rei Fernando? Pus-me a observar aquele que uma vez fora o túmulo fantástico de um Rei talvez não tão fantástico e achei apenas um buraco para poeira e restos de uma criança e um adulto. Deliciei-me de forma até culposa com a ideia de os profanadores também só encontrarem isso, pois afinal para que queriam tanto o corpo que valia a pena destruir uma obra de arte? No final os túmulos não passam disso, um lugar para guardar pó, de reis ou de mendigos.
Quero acreditar que o mesmo não pode acontecer com Dom Dinis, Pedro I ou os Joãos I e II, mas mais do que isso, onde estão os corpos de Camões e Duarte Pacheco? Como chegamos a isso e porque o fizemos? Portugal é uma nação grande com pessoas corruptas, não os barões mas nós, o povo, que vê tudo e nada faz! Por fim deixa-me caro leitor terminar meu desabafo; Jesus perdoou a tudo e todos, o adultero, o ladrão e o traidor, porem ao ver os barões não aguentou... Deitou-lhes o chicote até ver-se livre deles.
#Raiva #Inaceitável #PortugalPerdida
Frei Gil
Mais uma vez perdoem-me por me perder tanto em meus pensamentos nos relatos de ontem, hoje serei mais objetivo. Vou voltar ao vale de Santarém para o final do romance de Carlos e Joaninha, mas antes paro em Marvila de Santarém. Aqui, o que me chama a atenção é um Colégio grandioso e magnífico. Isso me faz pensar o motivo dos monumentos devastados que encontrei em meu caminho, não apresentarem a mínima conservação. Imagine, meu leitor, como está jornada teria sido mais rica e bela se todos os monumentos que encontrei apresentassem um perfeito estado de conservação. Enfim, este colégio foi fundado por jesuítas, os quais considero, em minha humilde opinião, os templários do século moderno, e após muitos anos de seminários religiosos, agora serve para palestras de teor administrativo. Engraçado como as coisas podem se transformar em coisas completamente diferentes em pequenos espaços de tempo. Saio do Colégio e tomo meu rumo para o estabelecimento monástico de São Domingos, local que quero muito visitar, pois quero ver o túmulo de Frei Gil. Porém, eu não estava preparado para o que me aguardava lá. Já logo de início fico triste ao ver como a capela é simples e mal ornamentada, porém quando entro eu vejo que o túmulo de Frei Gil fora violado e seu corpo roubado. Sacrilégio! Quem ousaria fazer isso? Isso não é nada menos do que uma ofensa à história de Portugal!
#MarvilaDeSantarém #Colégio #SãoDomingos #FreiGil #Sacrilégio #Furioso
Agora leitor, contarei algo que soube posteriormente sobre o corpo de Frei Gil. Apesar de acreditar nas palavras que ouvi não posso comprovar a veracidade delas, pois não estava presente nesse local nesse momento. Soube que três homens haviam praticado o roubo do corpo, alegando que isso era uma obrigação sagrada, porém, eu jamais concordaria com isso. Roubar o corpo de um santo é um sacrilégio e uma ofensa, não uma missão religiosa. Enfim, foi isso que ouvi. Continuando, os homens levaram o corpo para o mosteiro das Claras, para que as freiras cuidassem do santo, já que ele estava abandonado em seu antigo posto. Elas ficaram espantadíssimas com o ocorrido, mas por fim ficam encarregadas de proteger o cadáver de S. Frei Gil. Nem me lembro, ao certo, como essa história chegou até mim, porém eu guardei-a com fervor religioso. Talvez agora que o governo tolerante dos liberais está no poder eu possa revelar a verdade, mas isso tem que ficar para outro tempo, pois agora vou continuar minha jornada.
#FreiGil #Sacrilégio #Roubo
Hoje eu deveria continuar os relatos de minha jornada, seu que prometi isso ontem, mas com as novas informações que obtive o leitor terá que me perdoar, pois ao ouvir meu relato sobre o corpo de Frei Gil, meu companheiro retomou sua narração, relacionando-a com o que acabara de ouvir. Um dos homens que roubou o corpo de S. Frei Gil foi Frei Dinis, porém a história não continuou, ela foi deixada para a minha imaginação. Ódio! Com essa raiva em meu coração chego ao convento de São Francisco, onde até as plantas estão morrendo. Por um momento paro de andar e me encontro observando essas plantas. Enxergo nelas a história de Portugal. Algum dia elas já foram belas, sadias, imponentes e tratavam de ar um ar belo ao local, mas agora, estão esquecidas e abandonadas, se deteriorando e perdendo toda a sua beleza sem que ninguém se importe. Triste, muito triste mesmo. Entro no mosteiro. Dentro, vejo túmulos de pedra sem inscrições, que parecem gritar de abandono e solidão. Olhar para eles me faz pensar sobre como seria o final do romance. O que Joaninha fará agora que Carlos se foi? E Carlos que ama Joaninha e Georgina, mas fugiu de ambas? Escuto mais um trecho do romance. Frei Dinis saiu de Santarém, ninguém sabe para onde. Georgina também foi embora, pegou a estrada de Lisboa juntamente com Joaninha e Francisca, que aparentavam estar parcialmente mortas, e parcialmente loucas. Carlos não mandou mais notícias. Percebo que o romance será finalizado, e concluo que minha viagem também deve ser. Talvez até devesse passar mais tempo aqui em São Francisco, porém não tenho mais paciência para ver a história de meu grande país se destruindo. Vou-me embora. Adeus Santarém. Terra dos monumentos destruídos e das histórias perdidas...
#FreiGil #FreiDinis #SãoFrancisco #Romance #AdeusSantarém #TerraDasHistóriasPerdidas
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| Foto do convento de São Francisco. “S. Francisco é uma bela ruína, que merecia ser examinada devagar, com outra paciência que eu já não tenho”. |
Santarém
Apesar de o romance estar em um ponto interessantíssimo, a narração teve de ser interrompida, porém não antes de eu questionar meu amigo se a história de Joaninha já tinha terminado, recebo uma resposta negativa. Olho para a paisagem ao meu redor e suspiro olhando para o azul do céu, e sinto-me impaciente, pois quero saber os destinos das personagens. Porém só consigo ser criticado por me interessar demais em Carlos, que foi descrito por meu companheiro como “imoral, sem princípios e sem coração”, ele então disse que Carlos caiu em um indiferentismo absoluto e virou barão. Depois disso minha atenção se torna para o Santo milagre, e o final da história fica prometido para o dia seguinte. Começo a passear em Santarém e me deparo com a Porta de Atamarma que está para ser demolida, (apesar de ser o arco do triunfo de Afonso Henriques), porém falta dinheiro para que isso seja feito. Também passo pela capela de Nossa Senhora da Vitória e infelizmente tenho de ver como ela perdeu toda a elegância que possuía. Todos os belos monumentos de Santarém estão se deteriorando e a cidade está abandonada e morrendo, isso me desaponta e me entristece profundamente. Como eu quero com todo meu coração que a cidade se erga novamente e volte à sua grandeza original. Mas isso não é possível por hora, então tomo meu caminho para ver o Santo milagre. As fotos desse trecho de minha viagem serão postadas abaixo, para que meus leitores possam ver e entender o que está ocorrendo com a bela terra de Portugal, e assim compartilhar um pouco de minha dor.
#Santarém #PortaDeAtamarma #CapelaDeNossaSenhoraDaVitória #Santo milagre #Triste
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| Foto da Capela de Nossa Senhora da Vitória. “É um rifacimento ridículo e miserável, sem nenhuma da solenidade do antigo, nem elegância moderna alguma. Desapontou-me tristemente” |
Enfim chego à Igreja do Santo milagre, que é “do pior gosto moderno por dentro e por fora” e sou levado até o local onde se encontra a relíquia. É incrivelmente triste e devastador ver como nenhumas das relíquias ou das construções históricas são conservadas, é como uma facada em minha alma ver que a relíquia sagrada, e até um cadáver que aqui se encontra, está se deteriorando. Até a sepultura da princesa D. Maria está aqui, claro que sem o menor destaque. Solto outro suspiro, pois sei que nada posso fazer. Então esse é o destino que as grandezas e glorias recebem nesse mundo? Do que adianta produzir uma grandiosa história, se em poucos anos ela é esquecida e destruída? Após sair da igreja, me dirijo à casa onde ocorreu o episódio do Santo milagre, mais uma vez, o local está completamente abandonado, porém infelizmente eu já esperava encontrar isso. Olho para uma das janelas quebradas da casa, e não sei por que, mas lembro da história do homem das botas. Em tempos de guerra a hóstia que fora transformada em relíquia foi transferida para Lisboa por proteção, porém ao termino da guerra, Santarém quis sua relíquia de volta. Como o povo de Lisboa se opunha muito a isso, foi criado um boato de que um homem de botas iria andar sobre o rio Tejo, porém isso era apenas distrair o povo de Lisboa enquanto a relíquia sagrada era transportada secretamente para Santarém. Percebo o quanto o povo português não mudou e vou jantar.
#Santo milagre #Abandonado #Triste #Devastado
Após uma boa refeição monto em um cavalo e minha jornada continua, enquanto desço em direção à Ribeira, uma área mais rica e nobre. Aqui sou muito bem recebido, e tive a oportunidade de tirar boas fotos que postarei logo abaixo. Apesar da enorme gentileza das pessoas, essa visita me deixou mais uma vez entristecido. As construções antigas e originais são raríssimas, e as que restam estão em péssimas condições, até o café onde parei por um momento para tomar chá e descansar está infestado por insetos. Por acaso a pessoa tem algo contra conservar a história de Portugal? Apesar de tudo isso, enquanto no café, eu pude desenvolver uma boa conversa com meus companheiros sobre Lisboa, comparando-a com outras grandes cidades como Londres e Paris. Nessa discussão cheguei a uma interessante constatação da natureza humana: por que tudo nos parece melhor quando visto de longe? Isso chegou a pegar até a mim, quando antes de chegar à Santarém, imaginava-a como um lugar muito mais belo do que realmente é. Outra coisa que refleti hoje foi sobre a saudade. Quem disse que saudades matam? Eu acredito que saudades dão vida! Salvam as pessoas! Saudades mostram que ainda amamos alguém e que alguém sente nossa falta. Eu pessoalmente detesto a filosofia, porém hoje tomei tempo para filosofar sobre alguns aspectos da vida, perdoem-me leitores se isso não os agradou, não vou mais fazer isso.
#Ribeira #Filosofando #Saudades
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| Foto que tirei da bela Ribeira. “O pitoresco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas”. |
A batalha
Na noite em que Carlos e Joaninha se despediram iniciaram-se as batalhas decisivas entre os constitucionais e os realistas. Carlos foi convocado, acreditava que era um convite para a morte e pensar nessa catástrofe antes dela acontecer é pior que realmente morrer, há sofrimento perante a morte.
Carlos parte para a batalha, mais tarde um homem cravado de balas dá entrada em um hospital, não está morto, apenas debilitado, só segura junto ao peito algo pendurado num cordão preto, era a medalha com o cabelo de Georgina, sua mulher.
Em S. Francisco de Santarém está agora Carlos com Georgina. Ela diz para ele que Joaninha e sua avó estavam lá e que ela já sabia de tudo, ele fica desesperado e dorme. Dias depois Georgina revela que não o amo mais e ele fica muito chateado, além de dizer a ele que sua família iria visitá-lo.
#morte #medo #fuga #história
Carlos questionou se Georgina já não o amava mais, relembrando-a sobre os belos momentos que haviam passado juntos. Porém Georgina não se comoveu e disse que apesar de já o ter amado muito, ela sente que o amor entre os dois estava diminuindo e ela já não o amo mais (“Queres que to repita? Repetirei. Que tu amas tua prima que ela te adora. E por Deus, Carlos, eu já lhe quero como se fora minha irmã. Entendes bem que te não amo?”). Justificando isso por meio das cartas de amor que Carlos enviava para ela enquanto estava distante. Se de início elas eram completamente apaixonadas, elas começaram a perder a sua naturalidade ao longo do tempo. Georgina completou dizendo como ficou triste por apenas ter visto Carlos novamente ferido em um hospital ao lado de um frade. Carlos ficou furioso ao saber de Frei Dinis, e também após ouvir que sua avó e sua prima estavam lá também. Georgina então afirma que o seu amor por Carlos já não existia mais, já que ele amava sua prima Joaninha. Carlos não concordou, e voltou a ofender Frei Dinis, que neste momento entrou no quarto.
#Santarém #Romance
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| Como prometido, uma foto que tirei em Santarém. “Ai Santarém, Santarém! abandonaram-te, mataram-te”. |
Frei Dinis se aproximou de Carlos e o perdoou pelas ofensas que acabara de dizer e em seguida disse que o amava, apesar de saber que Carlos o odiava. Durante a conversa entre os dois, o confronto que estava ocorrendo entre os constitucionalistas e os realistas chegou a um desfecho, com vitória dos constitucionalistas. Frei Dinis esbravejou, e mais uma vez insistiu no perdão de Carlos pelas palavras ditas, e pediu que Carlos também o perdoasse. Neste momento ele quase revela que é seu pai, porém se impede no último momento (“Sim, tu Carlos. Revoga as palavras terríveis que proferiste, e em nome de Deus, filho, perdoa a teu...”). Carlos não aceitou as palavras do Frei e o acusou de ser culpado de toda a tragédia de sua família, como a morte de seu pai e a cegueira de sua avó. O Frei se diz culpado e pede a Carlos “Mata-me, mata-me!”.
Devo apenas fazer uma observação nesse momento de como tem sido agradável poder ouvir este belo romance enquanto viajo, mas temo que não consiga terminá-lo ainda hoje, pois logo mais irei visitar os famosos locais do Santo milagre.
#Romance #Santo milagre
Georgina pediu que Carlos perdoasse o frei, porém Carlos mostrou repugnância e se recusou. Georgina caiu de joelhos aos pés de Dinis e o confortou, depois seduziu Carlos para que ele também perdoasse Frei Dinis, e não resistindo à sedução de Georgina, Carlos foi ao chão e os três se uniram em um abraço. Aproveitando o momento, Frei Dinis pediu perdão à Carlos mais uma vez, porém acaba lembrando-o de sua mãe, Carlos então levantou-se com raiva e munido de uma pedaço de pau preparou um golpe fatal em Dinis, que lhe inclinou a cabeça como quem aceita a morte como destino, porém neste momento Francisca e Joaninha entraram no cômodo gritando e fizeram Carlos interromper o movimento do golpe, revelando que aquele homem era na verdade seu pai (“Filho, meu filho! — arrancou a velha com estertor do peito: — é teu pai, meu filho. Este homem é teu pai, Carlos”). Georgina e Joaninha trocam olhares e a primeira disse que não amava mais Carlos, a segunda, porém afirma que seu amor por ele apenas crescia. Georgina então se despediu da família e se foi. A verdade de que Frei Dinis não havia assassinado o pai de Carlos foi revelada a ele, que fica sabendo que na verdade Frei Dinis havia se protegido de um ataque do homem que ele acreditava ser seu pai, que juntamente do pai de Joaninha conspiraram para matá-lo, porém isso, não intencionalmente, resultou em suas mortes. (“Ambos se juntaram para me assassinar, e me acometeram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite, escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida à custa da deles.”). Carlos então saiu do quarto sem dizer uma palavra, e apenas voltou a dar notícias três dias depois, por meio de uma carta que dizia que ele estava junto do exército constitucionalista em Évora. #Romance
Está satisfeito com meu modo?
Hoje passei por diversos pontos de Santarém, sempre seguindo a esquerda. A cidade é apenas uma lembrança do nosso milagroso passado. Podemos observar aqui muitos traços da cultura moçárabe.
Por fim sentamos na muralha da Porta do Sol para que meu companheiro pudesse terminar a história da menina dos rouxinóis ainda hoje e eu vou contá-la para vocês no próximo post, sem interrupções.
#individualismo #digressões #história
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