Pronto, agora me vou! Finalmente dou adeus ao que deixei e vou-me embora de Santarém! Estou fatigado da cidade, mas ao mesmo tempo deixa-la abre-me um vazio no coração, porque não ficamos mais um dia? E falando nisso que dia é hoje? Sexta-feira? Péssimo dia para começar a viagem. Era nesse dia que tradicionalmente a velha era afligida por seu demônio em forma de Frei e foi ao passar de novo pela casa que senti-me atraído pela mesma e fui obrigado a espiar.
Lá, como antes havia acontecido, estava Dona Francisca, sempre tecendo com sua meada, e Frei Dinis, ajoelha com olhos fixos em seu livro vermelho e grosso. Logo perguntei por Joaninha, estava no Céu, fora um anjo segundo o Frei. Depois foi a vez de Carlos, o Frei não se conteve e me encarou com um olhar que não pretendo rever nunca e disse-me que estava só, que todos tinham-se ido. Por fim sobrava a velha, morta de desgosto, de angustia, de medo! Morta pelo meu interlocutor segundo ele mesmo. O Frei prosseguia inconsolável, informando que Santarém estava morta, Portugal estava morto, a esperança estava morta!
Mas a esperança é o que distingue os outros de nós, cristãos valentes, e logo nunca devemos abandona-la. Porem para aquele homem não havia sido ele a abandonar a religião ou a Deus, mas sim o contrário que ocorrera.
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“— Sabe a história do vale?
— Sei tudo até a partida de Carlos para Évora.
— Aqui tem a carta que ele escreveu.”
O narrador e Frei Dinis falando da carta de Carlos.
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#carta #leitura
Por fim deu-me uma carta para ler e entender porque Carlos havia ido e Joaninha morrido. Carlo havia partido, não para melhor, mas sim para longe e havia partido porque descobrira de onde viera. Descobrira quem seu pai era e o que fizera, o que sua vó acobertara e por isso havia abandonado Joaninha, pois não podia mais ficar lá. Não aguentava mais ver os dois, mesmo perdoando a avó, pois para ele o crime que ela acobertará era muito grande para ser perdoado. Deus porem devia perdoa-la, uma vez que tudo o que ela fizera foi causado pela cólera de Deus sobe a pobre senhora.
Mas não cabe a Carlos perdoar ninguém, visto que não há quem o perdoe. Há porem em Carlos uma admiração por Joaninha, a mesma Joaninha que ele traiu e para quem ele mentiu. A mesma Joaninha que ele trocou por Inglaterra, pela alta sociedade, por algo novo e culto. Foi nessa Inglaterra que ele conheceu o que chamava de três anjos e foi também por lá que descobriu o que era flertar, o prazer de amar sem o compromisso de galantear.
Lá também conheceu Laura, descrita por ele como fascinante. Nem alta nem baixa, forte mas não gorda, delicada mas sem magreza, não a mais bonita nem a mais adorável, apenas a mais fascinante. Primeiro amor, mais forte amor, amor reciproco mas ainda assim amor impossível. Parecia o destino do rapaz um amor impossível.
Eles se amavam, amavam e notava-se isso, mas ao mesmo tempo Laura estava comprometida, tinha de partir para Gales e depois para a Índia, estava destinada a ir para não mais voltar. Carlos sabia disso, mas não aceitava isso, só finalmente vendo o futuro se tornar presente ao deixar a amada nas cais para partir para terras das quais não voltava mais. E mesmo se voltasse Carlos não devia vê-la, ele prometera.
A sua irmã, Julia, passou a ser o meio termo entre ambos, sendo a intermediaria de cartas entre eles, porem finalmente Laura foi pra Índia e com uma última carta encerrou o que foi o primeiro verdadeiro amor do rapaz. Nisso surgiu uma terceira irmã, Georgina, que deu a Carlos o que o mesmo descreveu como os três meses mais feliz da própria vida. Amou, foi amado, não foi rechaçado por uma promessa de casamento. Carlos com isso tornava-se um homem feliz... Ao menos até a pátria chamar.
A mesma pátria que havia sido abandonada pelo próprio Rei, tornada colônia de sua colônia e humilhada de todas as formas possíveis. Ainda assim a pátria era a pátria e Carlos tinha um compromisso para ela. Trocou a alegria pelo direito de defender o próprio país e aceitou que era lá, numa guerra entre pessoas que nunca viu e que nunca ligaram para ele, que deveria estar e talvez morrer.
Não morreu, viveu mas não voltou ao vale que uma vez lhe servira de casa. Decidiu que era para ser barão e político, que ia gritar aos ministros que não sabia quem eram e, se tudo desse errado, por fim viver como um agiota, pois afinal que outra opção sobrava para uma vida cheia de aventuras?
Terminei a carta e encarei o frei. Me contou que afinal Carlos virara barão e ia ser deputado, quem diria?! Deu-me o final de minhas principais almas amigas; Joaninha enlouquecera e voltara para o vale para morrer; Georgina virara abadessa num convento inglês e a velha... A velha não estava morta de facto, mas sim de alma. A velha nada mais era do que restos de carne esperando para serem decompostos... pena.
“— Que transformação! como se fez isso santo Deus! E Joaninha? e Georgina?
— Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra.”
Joaninha enlouqueceu e morreu.
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Por fim só sobrou-me despedir-me do frei e aceitar que nem eu nem ele estávamos certos, que nem barões nem frei tinham todas as respostas e que toda aquela guerra baseada na promessa de mudança nada mais era do que uma briga mesquinha por um poder que nenhum dos lados realmente deveria ter. Assim acabou minha viagem caro leitor, não sei se foi do teu agrado mas espero ter sido ao menos interessante, porque não há mais sobre o que falar.

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