sábado, 18 de abril de 2015

#Recriando

Caro leitor, decidi-me agora por recriar o que escrevi. E se não fosse o século 19 mas sim o 21? E se um rapaz, economista, com sobrenome de Passos Coelho nos governasse? Como seria a vida e a história?

“O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquilamente as mãos e o novelo no regaço, e chamou para dentro da casa:

-Joaninha?

Uma voz doce, pura, mas vibrante, destas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro da alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:

-Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.

-Querida filha!... Como ela me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando puderes. É a meada que se me embaraçou.”


-Fique tranquila, minha avó ! Pronto… vou desembaraçar para a senhora ! - Joaninha era uma daquelas jovens puras, doces, e de uma natureza esplendida, na qual só a sua voz já transmite a maior paz que qualquer ser humano tenha deslumbrado.


-Ah minha neta ! Obrigada, estou embaraçando muito a meda ultimamente...Estou perdendo a prática !

-Magina avó... Há coisas bem mais embaraçadas do que esta por aí...- Na voz dela havia um tom de melancolia e súplica, desejando expor todos os seus pensamentos.


-Que voz é essa Joaninha ? A que te referes exatamente ?


-Ah minha avó... não ouça as minhas bobagens, apenas gostaria que vivêssemos num país diferente e Deus que me perdoe,mas que fosse comandado por pessoas que tivessem mais que euros na cabeça...


A avó conseguia notar muito bem pelo tom de voz da neta, que havia uma espécie de revolta notória. A velha bem sabia que a neta não era tola, muito pelo contrário, acreditava que quando tinha esse tipo de conversa com a neta, a jovem estaria expondo seus pensamentos ocultos. Resolveu aprofundar o conteúdo:


- Reclamas de boca cheia ! Se tivesses vivido durante a ditadura, não estavas praqui reclamando de um sujeito tão jeitoso quanto o nosso primeiro ministro !


- Avó de Deus ! Com todo o respeito que tenho pela senhora precisamos comprar outro óculos!


As duas riram. E Joaninha resolveu aproveitar um dos momentos mais descontraídos com a velha:


- Minha avó, me conte então, como era naquela época?


- Era terrível minha querida netinha. Na época não podíamos falar nada que ninguém nos voltava a ver. Pessoas eram mandadas para África para morrer e qualquer oposição ao governo era traição nacional. Depois veio a guerra e as coisas só pioraram. Aquele louco do Salazar achou que devíamos proteger a colônias, custasse o que custasse! Milhares de bravos homens foram para lá e nem todos voltaram... Era horrível!


Joaninha estava pasma e fascinada ao mesmo tempo. Não conseguia imaginar uma época em que tudo era reprimido pelos políticos e qualquer oposição era eliminada a todo custo. Resolveu tirar mais informações:


- Mas porque ninguém se revoltava ? A forca do povo pode superar muitos governos!


A avo começou a rir da ingenuidade da neta. Alguns momentos a maturidade da neta fazia a avo esquecer que Joaninha era apenas uma menina e que ainda teria muita coisa a aprender:


- Claro que nos revoltávamos querida, mas Salazar era forte! Quem o fazia tinha garantias de aparecer morto com um tiro na nuca! E alem do mais ele era muito querido por alguns de seus feitos, afinal antes dele éramos uma bagunça econômica e um falhanço quanto a política externa. Foram precisos os militares para tira-lo do poder...


Havia um pesar na voz da avo e Joaninha percebia que não deveria continuar o assunto, mas ainda corria em sua mente as mudanças que poderiam acontecer e em uma indagação profunda e esperançosa, perguntou- se se algum dia presenciaria as tais transformações...

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