Em tempos de guerra, percorrem pelo país notícias e rumores sobre agressões, comoções, vinganças e outros combates. Aqueles oito dias no vale foram repletos de ansiedade e aflição. Na sexta feira, cada hora parecia mais longa que a anterior; o dia já terminava, e Frei Dinis ainda não aparecera.
Plantadas na porta da casa, Joaninha, com os olhos atentos, e a velha, com os ouvidos aguçados, aguardavam ansiosamente o frade quando este apareceu, vindo de Lisboa. Tal notícia abalou as emoções das mulheres: não tardaram a suplicar notícias ao frade. Frei Dinis deu de ombros, demonstrando indiferença. “E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos?”, ele disse, secamente.
O frade mentia, entretanto. Utilizava-se desses tons de desprezo para disfarçar a imensa dor de sua alma. O disfarce não foi reconhecido, e causou grande comoção na pobre velha, que implorou por notícias em nome da falecida filha. Tal súplica exaltou a raiva do frei, que a culpou por conjurar o demônio que traz encarcerado no seio. Enfim, cedeu: contou que Carlos estava vivo e possuía uma carta dele para Joaninha.
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Verdächtiger Rauch, Carl Spitzweg.
“Tudo isto porém era com a prima; para a desconsolada avó, para ninguém mais... nem uma palavra.”
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A pedidos da velha, Joaninha, encabulada, leu em voz alta a carta, que se destinava somente a ela. Por isso, nela estava expresso o amor fraterno entre os primos, saudades do passado, poucas esperanças no futuro... e nenhuma palavra para a avó ou mais ninguém. Joaninha, então, tentou improvisar uma bênção à avó, mas esta percebeu o improviso. Frei Dinis se retirou. Ao longe, ouviram-se soluços sufocados... Seriam dele?
Na outra semana, Joaninha deu ao frade a resposta da carta. Porém, meses se passaram sem nenhuma outra carta de Carlos. A guerra civil progredia: Lisboa estava sob o poder dos constitucionais. Ao fim do verão, o exército realista cercava Lisboa, e as linhas da cidade estavam fechadas e guarnecidas. De lá veio Frei Dinis numa sexta-feira.
A velha pediu-lhe notícias, as quais o frade não pode dar. Angustiada, a velha pediu a Deus proteção para Carlos. Frei Dinis então passa a criticar a ambição e cobiça de um lado e a imoralidade e a perdição de outro, e especialmente a posição de Carlos, que se juntou aos destruidores dos altares e dos templos de Deus. Horrorizada pelas palavras do frade, a velha transpareceu seu desejo de contar ao neto “toda a verdade”.
A guerra chegara ao vale de Santarém. Joaninha comunicou à velha e ao frade sobre tropas que se aproximavam. Este último tentou convencer as duas mulheres a deixarem a casa, mas a velha estava decidida a ficar e defendeu com toda vontade e coração a casa e o afeto que guarda por ela.
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| The Quicklime Works, Theodore Gericault |
A natureza refletiu o terror inicial da guerra: as folhas caíram, tempestades se formaram, o mato crescia selvagem, o gado e os pastores fugiram. Joaninha e a velha logo ganharam o respeito dos militares e dos comandantes, garantido segurança para si. Pouco a pouco, a guerra foi se tornando habitual, familiar. “A tudo se habitua o homem... Não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos atos lhe não faça natural”. Porém, ainda não havia nenhum sinal de Carlos... Pobre velha!
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| Landscape with rainbow, Caspar David Friedrich. “A guerra parecia cansada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas transações giravam por toda a parte.” |
Logo a primavera foi chegando, e a guerra tornava-se cansada. Soldados opostos passaram a ver-se sem ódio, até a conversar amigavelmente. Joaninha habituara-se à situação, amparando os feridos e consolando a todos. Já muito estimada e respeitada pelos soldados, estes se referiam a ela por “menina dos rouxinóis”, por passar horas à sua janela escutando os pássaros.
A menina dos rouxinóis ganhara o costume de passear por entre as árvores. Certo dia, os constitucionalistas avistaram um vulto e se aproximaram: era Joaninha, adormecida entre o grupo de árvores.







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